Sobre os Padrões e a Beleza de Verdade da Mulher – parte 1

Desde sempre houveram padrões de beleza feminina. Basta observar artefatos egípcios, perceber a beleza dos adereços, das joias, os retratos da figura feminina naquele momento. Assim se sucederam vários modelos de beleza. Das mulheres mais fartas do Renascimento, às mulheres em alguns países da África que precisam criar cicatrizes em todo corpo para serem consideradas belas.  Da palidez das gueixas no Japão ancestral, às belas indianas de religião hindu que se cobrem de ouro como se fossem as próprias personificações das grandes e lindas deusas.

Nefertiti, a Femme Fatale do Egito Antigo

Aparentemente o conceito de feminilidade sempre andou de mãos dadas com a busca incessante da beleza, e durante muito tempo, as mulheres não eram tratadas como muito mais do que adereços ou peças de decoração que andam e falam. Mas para mim, os conceitos de beleza nunca foram tão cruéis e mutantes como agora.

 

Podemos dizer que estamos na sociedade da imagem, a sociedade do simulacro, do oriente ao ocidente a TV, e outros meios de comunicação se dedicam a compartilhar o que é ser bonito, o que a mulher precisa parecer para ser aceita. E com a internet, blogs e vlogs de beleza, parece que chegamos a um ritmo epilético de sugestões de produtos, regras, padrões e ostentação.

Preciso esclarecer que não tenho nada contra maquiagem, cuidados com os cabelos, moda, quem convive comigo sabe disto muito bem. Mas  não nego que este é um assunto ambivalente na minha vida, e tem a ver com a minha história e a afirmação da minha personalidade. Quando olho para traz e reconstruo esta história, percebo a razão deste assunto e destes padrões me instigarem tanto e me fazerem querer questioná-los e lutar para que sejam subvertidos. E o quanto eles estão distantes de uma beleza plena e duradoura.

 

Vivi uma infância relativamente normal, e até meus nove anos era uma criança considerada muito bonita para os padrões… o que me ensinou o quanto o fato de apenas ser bonita, abre portas e faz com que as pessoas tenham maior boa vontade com você. Entretanto, aos dez anos sofri uma ruptura, saí da escola pública onde tinha vários amigos, e passei para uma escola particular de ambiente extremamente esnobe e hostil. Coincidindo com esta época, comecei a ter acne, era muito jovem, e vocês sabem como crianças podem ser cruéis, especialmente as mimadas.

 De repente da mais bonita da escola, passei a ser a aberração. Sofri bullying dos 10 aos 13 anos das minhas colegas “patricinhas”… nada que eu vestia era adequado, e ouvia “elogios” como ridícula, pobre, brega, feia, todos os dias, ir pra escola era um pesadelo! Como podem imaginar, que com 14 anos eu não tinha nenhuma auto-estima. É engraçada essa violência silenciosa chamada bullying… esqueci o rosto e o nome de várias colegas que estudaram comigo no ensino médio, mas me lembro do nome, do rosto de cada menina que me agrediu sutil ou declaradamente durante aqueles quatro anos do ensino fundamental.

O caminho de volta, quando se convence de ser a mais feia  de qualquer grupo que você frequente, não é fácil. Uma vez que você foge ao padrão, muitas pessoas usarão esta “fraqueza” contra você: se você discorda de algo  que seus princípios dizem ser errado, geralmente a pessoa contrariada (especialmente se ela se acha muito bonita) vai usar contra você o argumento da inveja – que sempre cola, afinal, aprendemos com os contos de fada, que o bonito é bom e o feio é mal.  De toda forma, o estigma se vira contra você.

Por outro te faz buscar e conquistar outras coisas, no meu caso,  me fez valorizar demais a amizade, a gentileza, a bondade, e me fez também buscar sentidos e significados espirituais para tudo que nos acontece na vida.Outra coisa sobre a feiura: não ter a aparência socialmente admirada, faz com que você se expresse de outras maneiras, eu busquei a minha diferenciação acabou no desenho e no intelecto. Através destas habilidades,  catei e colei os caquinhos do meu auto-amor e os fui colando um a um.

 

Neste caminho tortuoso, acabei me deparando com a yoga, e aprendi sobre uma filosofia que trata nosso corpo como muito mais do que parece, uma maravilha que pode nos ajudar a encontrar paz, serenidade. Aprendemos que trabalhando nele podemos impactar questões emocionais, dificuldades impostas pela nossa mente. Me aprofundei na yoga, fascinada por estes novos olhares, estudei para me formar professora, e um ano e meio de curso me ensinou mais do que todo tempo de graduação, especialização, mestrado na minha área profissional.

Com a yoga, aprendi a ver a beleza de cada ser que se construiu e se burilou por um propósito espiritual superior, que cada parte do nosso corpo guarda parte de nossas história como seres cósmicos, imortais. Desde que descobri a yoga, quando  pratico, me sinto bonita, radiante, como se fosse mais do que apenas um corpo, e como se o padrão de beleza transcendesse tudo que conhecemos, e em uma aula, vejo cada aluno/colega com uma beleza legítima e única. Finalmente, aprendi a não exigir de minha aparência um padrão irreal e desnecessário de se alcançar e o melhor: enxergar a beleza de toda criação.

 

Esta histeria coletiva da aparência acima de qualquer coisa, tem me incomodado mais do que costumava incomodar, ultimamente. Tenho assistido videos de beleza, maquiagem e estilo no youtube, e me pego pensando “puxa vida!” De repente parece que todo mundo tem que ter uma maleta de maquiagem da M.A.C se quiser chegar a ser apresentável. Todas têm que saber se maquiar profissionalmente, até pra fazer compras no próprio bairro. Todo mundo tem que ter seios de silicone, roupas de marca, o batom lançamento que as atrizes da novela das 21h está usando, um corpo com 0% de gordura, os cabelos impecáveis.  Quem consegue, num dia a dia corrido de trabalho, manter um padrão destes e ainda ser feliz?

 

Fico pensando na possibilidade de convivência da felicidade e paz interior com a ânsia de beleza e juventude eternas… acho justo querer envelhecer com saúde e harmonia, mas é imprescindível criar uma cultura de que vamos envelhecer, e aprendermos a ver a beleza em todas as fases da vida, não como fazemos, tentando congelar os 25 anos de idade pra sempr.

Neste aspecto, há muito que aprendermos com as filosofias orientais  ancestrais. Quando penso nestes assunto, sempre acabo me reportando a  yoga, e do quanto ser aceita na beleza de seu próprio contexto nos faz sentir poderosa, linda e ilimitada! Esta percepção me despertou uma gratidão enorme, pois de posse desta sabedoria, consigo perceber quando estou sendo comparada com algo irreal, e mantenho meu centro. Sempre dá pra melhorar, mas pode ser sem pressa, e sem pausa.

 

O olhar da arte e da yoga, acabaram por formar o meu olhar sobre as pessoas e a beleza, meu padrão e conceito de beleza, é bem diferente do que a mídia constrói a cada dia. Minhas amigas que considero realmente belas, nas quais eu me miro para me tornar melhor, para me inspirar, possivelmente não estampariam uma revista, ou apareceriam na tv, mas para mim representam a real beleza: a beleza da autenticidade, da luta pelo bem comum, da inteligência e generosidade…

 

Gostaria de saber das amigas leitoras, como é a convivência de vocês com isto tudo? Homens, o que acham disto? Vocês gostam deste padrão de photoshop da vida real que está sendo imposto? Quais as pressões silenciosas que são impostas a vocês? Alguém também teve a auto-estima destruída e teve que encontrar sua própria maneira de reconstruí-la? Qual foi? Aguardo suas experiências para dar continuidade.

 

4 Respostas to “Sobre os Padrões e a Beleza de Verdade da Mulher – parte 1”

  1. Cassia Souza Says:

    Lindo Texto Cleide, parabéns!

  2. Ana Maria da Silva Says:

    Adorei o que vc escreveu, pois também sofri builing, e naqueles tempos era moda ser mais cheinha, e eu era super magrinha e alta. Nossa eu sofria um complexo absurdo, inacreditável. Mas o tempo passou, e tudo se reverteu a meu favor.. Hoje estou cm 60 anos e tenho um corpo muito bom, tudo no lugar… e as minhas antigas “amigas cheinhas estão todas gordonas. Então tá vendo, eu sofri tantos apelidos na época, e tudo passou… tá vendo!!!

    • Cleide Sousa Says:

      Ana Maria, quanto mais o tempo passa, mas a minha impressão que não importa a sua aparência sempre haverá alguém para dizer que não é boa o suficiente, aumenta. No final das contas, nós temos mesmo que fazer este caminho para dentro e construir a aceitação da beleza de cada um…


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