50 Tons e uma Questão: que está acontecendo com as heroínas de nosso tempo?

 O que está acontecendo com nossas heroínas literárias e televisivas?

 

A arte muitas vezes é reflexo da sociedade que a produz, mas também tem a missão de enxergar além, inspirando e mostrando o que o ser humano pode ser ou aspirar. Desta forma, ela consegue dar aquele salto no futuro, ou construir os arquétipos vislumbrando o que somos capazes de fazer ou gostaríamos de ser.

 

“As três idades da Mulher” de Gustav Klimt

Não me considero uma entendedora de literatura, ou uma grande crítica do assunto, falo com a autoridade de leitora apenas, conheço tampouco de feminismo, falarei então do que tange meu sentimento. Como já comentei aqui no blog, meu gosto pela leitura nasceu na infância, com 7, 8 anos lia pelo menos um livro por semana, e hoje em dia, como usuária de transporte público em metrópole de terceiro mundo – o que ajuda a calcular o tempo que fico em trânsito – leio por volta de 2 ou 3 livros por mês, dependendo do tamanho e complexidade da obra.

 

Da mesma maneira, aprecio cinema, não como crítica especializada, mas como alguém que gosta da linguagem e tenta compreendê-la, bem como séries bem elaboradas de TV. Nestas aventuras literárias, televisivas e cinéfilas, aprendi a observar os modelos criados, as heroínas, a representação do feminino e sua força nestas manifestações artísticas. E tenho que comentar do meu assombro com o sucesso a partir do final da primeira década do século XXI, de obras como Crepúsculo e agora o novo best seller, o livro dito erótico sadomasoquista: 50 Tons de Cinza (que por sinal se originou de uma Fanficion do primeiro). 

 

Sério que o cara que gosta de dar umas palmadas virou o  sonho de consumo das mulheres em pleno Século XXI? Eu nunca apostaria nisto dez anos atrás!

 

Vou defender meu ponto de vista, mas antes que me acusem de carola, “recalcada” ou moralista, tenho que dizer que meu assombro não se justifica pelo presumido “erotismo” da segunda obra (que eu intitularia de “erotismo fantástico”). Admiro escritores da literatura erótica, especialmente Anais Nin que é um exemplo de mulher que se destacou no início do Século XX nesta arte quando nenhuma outra ousava fazê-lo, e considero alguns filmes eróticos verdadeiras obras de arte no quesito fotografia, luz, trilha sonora, exalando mistério, bom gosto e despertamento dos sentidos.

Cena de “Delta de Vênus” de Zalma King, baseado na obra de Anais Nin

 

Sinceramente, fico surpresa com uma geração que tem como modelos do feminino, protagonistas como Bella ou Anastasia. Seriam elas retrato de uma geração apática, passiva cuja única salvação seria um homem extraordinário para salvá-as da anestesia cotidiana? Não haveria nada na vida destas protagonistas, em sua intimidade, em sua vida mental capazes de salvá-las do tédio? Somente um bilionário, de beleza irreal e atormentado, pode trazer algum movimento digno de se notar na vida destas meninas? De onde vem esta predileção por homens violentos? São questionamentos e hipóteses que me vêm quando penso no fenômeno em torno destas publicações. Muitos podem me acusar de pensar demais sobre algo que é apenas entretenimento, mas não consigo ver nenhum fenômeno de massas acriticamente.

 

 

É notável o furor com estes livros, digo isto, por que como observadora do cotidiano, tenho impressão que em cada 10 mulheres que vejo lendo em salas de espera, no metrô ou nos ônibus na minha cidade, cerca de 70% está com algum livro da série “50 Tons” nas mãos. E o recorte de idade é o mais variado, de mocinhas adolescentes à senhoras jovens e maduras. 

 

Perante esta constatação, me vem um retrospecto das protagonistas que já me inspiraram, e o que elas trouxeram para formação da minha personalidade na juventude e em relação às reflexões sobre a vida. Certamente o modelo que mais inspirou minha adolescência, foi a agente Dana Scully de Arquivo X. A personagem em questão, agente do FBI, lidava o tempo todo com o ser feminina em um ambiente totalmente masculino, tendo que se fazer forte, pragmática, prática, para “competir” como igual em um ambiente, em que qualquer deslize a exporia e sua condição de mulher e sexo “frágil” lhe daria desvantagem.

Dana era bela, mas tudo em sua aparência e personalidade indicavam sobriedade e esta luta para se fazer legítima em ambiente hostil. Usar a lógica, e o bom senso em todas situações, ser forte, crítica, eliminar a fraqueza da dúvida. Isto em parte, a tornava uma mulher aparentemente dura, mas em uma série de nove anos, como personagem bem criada, e multifacetada, era possível desdobrar todas nuances desta complexa personalidade. Como alguém que cresceu e se formou profissionalmente final da década de 90, e início dos anos 2000, certamente Scully me inspirou a buscar a verdade, ser honesta, julgar baseada em fatos, e procurar ser forte sem negar minha subjetividade. A buscar a justiça, a verdade e defender com amor aquilo que acredito.

 

 

E assim como Scully, outras grandes mulheres em outras séries, foram lindamente construídas, posso citar a extraordinária e complexa Olivia de Fringe, e por que não a sexy Lisa Cuddy? Que não obstante linda, e poderosa reitora de um hospital universitário, lidava com a carência, incompreensão, a solidão e o sofrimento de amar alguém tão atormentado, a ponto de a única solução para sua história fosse abrir mão deste amor doentio – sim, a mulher madura que enxerga que mesmo que seu amor fosse maior que o mundo, e que a própria vida, não haveria como salvar o ser amado, sem se perder, uma vez que sabe, que o amor por si só, não muda num toque de mágica quem não quer ser mudado.

Bridget Jones, que apesar de atrapalhada e pouco intelectualizada, traduz a paixão e a neurose da mulher pós moderna, construindo seu lugar no mundo. Divertida heroína aos avessos, inspirada (quase uma paródia) em sua história com Darcy na grande Lizzy de Orgulho e Preconceito, que inaugurou a fileira de mocinhas que resolveram romper com a fatalidade e construir seu próprio destino, ou a suave, meiga e ao mesmo tempo intrépida Chyio de Memórias de Uma Gueixa, que correu a vida toda buscando um sonho… até abraçá-lo com todas as forças!

 

Não aceito que seria falta de referências, pois contemporâneas a Anastasia e Bella, temos a extraordinária Hermione, construída com tal cuidado, que lendo a série Harry Potter, sobressai das páginas como se fosse uma pessoa real e não fictícia, e que não sendo nascida no universo criado pela J.K. Rowling, vence os preconceitos e se torna a grande heroína, situando-se tão alto como o próprio protagonista, utilizando-se de duas armas que ela muito bem destaca, no primeiro episódio da série: esperteza e livros.

E ainda, do épico Games of Thrones, duas mocinhas que saltam aos olhos: Aria Stark, destemida, corajosa e sobrevivente a adversidades que apavorariam muitos marmanjos. Ou a fascinante Daenerys Targaryen, ainda menina vendida pela ambição do irmão, se torna Khaleesi, e aprende a ser forte e justa,  viúva, abandonada no meio do deserto, tem que descobrir a própria força e a própria mágica, para se tornar mãe dos dragões, libertadora de escravos.

 

Se não é falta de mulheres extraordinárias para se espelhar na fantasia e na ficção, qual sintoma esta predileção por livros tão pobremente escritos, e  personagens unilaterais, submissas e fúteis indica? Qual a construção do feminino este fenômeno demonstra? Quem as Anastasias e Bellas representam? Ainda estou tentando descobrir.

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8 Respostas to “50 Tons e uma Questão: que está acontecendo com as heroínas de nosso tempo?”

  1. Verônica Nascimento Says:

    Excelente reflexão. Permite-me partilhar isto no Face?

  2. Celma Satler Says:

    Parabéns Cleide! Perfeita colocação… Ah, quando descobrir quem as Anastasias e Bellas representam, nos conte! Bjim… Vc é 100000…

  3. Priscila Says:

    Cleide, estou viajando, mas recebi a notificação de que tinha texto novo seu por aqui. Vim dar uma olhada, mas gostei tanto que não pude deixar de comentar que concordo inteiramente com você… Jamais me despertaria o interesse ler um livro cujo protagonista é um rico que humilha e domina uma mulher através de sexo e dinheiro… E fico intrigada em tentar entender a cabeça da mulherada que aprova esta obra… Amo as protagonistas fortes, cheias de personalidade própria, e ver uma Anastasia Steele sendo tão lida realmente me deixa intrigada… prefiro pensar que é mais uma modinha, ou que as mulheres possam estar focando apenas na questão sexual do livro, como uma fantasia (e não que desejariam ser como a protagonista…). Enfim… Texto muito bom. Bjos.

    • Cleide Sousa Says:

      Pri! Obrigada pelo carinho e atenção de estando em férias ler o texto!
      Então… eu também compartilho das suas esperanças, que seja uma modinha, que o fato dele ser tão lido seja a questão mercadológica e publicitária… que isto passe e as mulheres passem a buscar melhores paradígmas.
      Você está na Europa? Faz umas fotos lindas pra compartilhar com a gente! Quem sabe você escreve um bom diário de bordo sobre Paris ou Praga para postar aqui? Eu adoraria!
      Beijos!

      • Priscila Says:

        Cleide, obrigada pela ideia do diario de bordo, adorei! Estava mesmo querendo, qdo chegar ao Brasil, escrever sobre algumas impressões, não só sobre passeios e pontos turísticos, mas tb sobre as pessoas, costumes que observei aqui, pois isto é tão rico qto o próprio passeio em si. Se houver uma oportunidade de escrever um prazer pra mim. E qto as fotos, pode ir acompanhando meu face, tenho feito (ou eu ou meu marido) postagens diárias por onde estamos passando, da ja pra ter uma ideia. Bjos.

  4. Cleide Sousa Says:

    Reblogged this on Colcha de Retalhos and commented:

    Aproveitando o frisson provocado pelo lançamento do filme “Cinquenta Tons de Cinza”, acredito que o texto continua pertinente.


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