As Magníficas Memórias de uma Gueixa

“Habitualmente falava como um tom de voz suave, como se esperaria de uma mulher que fez carreira entretendo homens. Mas quando desejava me apresentar alguma cena de sua vida, sua voz podia me fazer pensar que havia seis ou oito pessoas na sala. Às vezes ainda toco suas fitas em meu estúdio à noite, e acho muito difícil acreditar que não vive mais”

(Memórias de Uma Gueixa. 2000, p.8)


Memórias de uma Gueixa é sem dúvidas um dos filmes mais impressionantes que assisti. Não que a história seja recheada de ação, impressionante pelo impacto visual e pela delicadeza que nos faz mergulhar em uma cultura cheia de sutilezas, ritos e beleza, como a do Japão Milenar.

 

Há muito familiarizada com o filme, fui presenteada no Natal do ano passado com o livro no qual ele foi baseado. Adianto que o filme é muito fiel ao livro, mas alguns detalhes seriam impossíveis de se transportar para a película. Como os sentimentos e pensamentos da espirituosa Sayuri e a magnificência dos cenários e obras de arte da cultura que a circundava.

O que mais me impressionou, foi como um homem norte americano: Arthur Golden, conseguiu desvendar, descrever e expor o íntimo da alma feminina… pois certamente, independente do tempo e espaço, há em toda mulher algo de Sayuri, ou se vocês preferirem da pequena Chiyo, a menininha arrancada de uma pequena casa de pescadores e levada à fervilhante Kioto – o grande distrito de gueixas, coração do Japão tradicional.

Um dos toques incríveis da história, são os olhos impressionantes – cor de espelho – da protagonista, ao qual, a tradição japonesa atribuía à grande quantidade de “água” em sua alma. E como tudo em sua difícil história, conta sobre a necessidade de contornar amorosamente os obstáculos e prosseguir. O poder da água, de mudar tudo em seu tempo, e de rebelar-se usando de sua força quando fosse necessário.

Quem assistiu ao filme, sabe que de chegada em Kioto, a jovem Chyio vai servir a uma casa de gueixas, a “raínha” da casa era Hatsumomo, de temperamento explosivo, dona de uma beleza perfeita mas extremamente má.

 

A primeira vez que Chyio vê Hatsumomo

O livro traz nuanças profundas da maldade e beleza da personagem, que não são retratadas no filme, entretanto, em sua licensa poética, o filme dá à personagem o final que condizia com sua personalidade: fogo.

A luta pela afirmação e conquista de seu lugar no mundo, por parte de Sayuri, enfrentando o poder bélico de Hatsumomo, se desenrola no livro, como uma dança do fogo com a água… tudo acontecia dentro dos parâmetros, das etiquetas e veladamente, no mundo secreto e misterioso daquelas mulheres.

Para Sayuri, todos tinham suas motivações e caminhos, e ela, que foi arrancada da família, tomada da irmã, e tornada escrava, parecia não ver sentido na vida. Para ela, inicialmente, pouco significava se tornar uma gueixa, até que um personagem fundamental surge em sua vida. E para mim é uma das histórias de amor mais bonitas do cinema e literatura, a de Chyio pelo presidente.

 

O encontro inesquecível de Chyio com o Presidente

Chyio tinha perdido tudo, e no momento mais grave da sua vida, ainda uma criança, ela se entrega à depressão… e então, sem sentido na vida, se recosta à uma ponte sobre um riacho, olhar e pensamento perdidos no tempo e espaço, quando ouve: “Ora, um dia tão bonito para ser tão infeliz”. Com essas palavras bondosas, o presidente desperta a menina de seu transe, e a acorda de novo para vida.

Quando assisti ao filme pela primeira vez, não imaginava que aquele era o grande momento da mudança, mas assim como na vida real, são pequenos encontros que podem mudar uma vida toda…

“Corri até a Avenida Shijo, segui por ela até o fim, na beira leste de Gion, onde ficava o Altar Gion. (…)Lá joguei as moedas na caixa do ofertório – moedas que teriam bastado para me tirar de Gion – e anunciei minha presença aos deuses batendo palmas três vezes e fazendo uma mesura. Com olhos bem fechados e mãos unidas rezei para que me permitisse de alguma forma chegar a ser uma gueixa. Eu suportaria qualquer treinamento, qualquer dureza, por uma oportunidade de atrair outra vez a atenção de um homem como o presidente.” (p. 124)

 

 

O início do aprendizado...

Nesse momento Chyio começa a se transformar em Sayuri, uma das mais impressionantes gueixas que o Japão já vira. Concessão dos deuses ou destino, o pedido da moça começa a se realizar, quando a maior gueixa daquele distrito a toma por irmã mais nova, um hábito que faz de uma moça aprendiz de gueixa, e no culminar do processo, gueixa de fato.

 

A bela Mameha, irmã mais velha de Chyio

Esse é um dos momentos mais ricos do livro, e que é pouco retratado no filme, em que mergulhamos profundamente nas tradições do japão antigo e no mundo das gueixas. Os penteados, o ritual de se vestir o quimono, as danças e o que treinamento capaz de fazer de uma mulher uma obra de arte viva. Assim como outras curiosidades como os mizuagues e dannas. Não vou me aprofundar aqui, recomendo a leitura da história.

O processo de transformação de uma jovem em gueixa, leva anos… e nesses anos, acompanhando Mameha, sua irmã mais velha.

Sayuri vai sofrer muitos encontros e desencontros… quase todos envolvendo o presidente e seu amor imorredouro por aquele homem, que para ela era a figura da bondade e gentileza no mundo. Infelizmente o presidente lhe parece indiferente,  a maior parte do tempo, sendo amigável, sem demonstrar maior interesse ou afeto pela moça.

E nós, leitores, telespectadores, somos levados ora à frustração ora às esperanças que nutrem o coração da protagonista, que passa boa parte da vida, trabalhando duro, com um objetivo quase ingênuo: chamar a atenção daquele homem.

O mundo muda, o Japão entra em guerra, novamente ela se vê no caos, e vê todo seu mundo se dissolver perante seus olhos… Memórias de uma Gueixa, é também um romance sobre a impermanência de tudo, conceito tão presente na cultura oriental.

E finalmente, quando tudo está perdido, e Sayuri, desiste do presidente jogando simbolicamente o lenço dele que ela carregava consigo desde aquele primeiro encontro na sua infância, de cima do penhasco. Nós desistimos da história e ela também… somos levados para o mesmo estado letárgico que a protagonista… quando somos surpreendido, como muitas vezes somos na vida real.

 

Um cliente marca horário com a gueixa, ela resignada com o destino de seu amor não correspondido, prossegue vivendo no “piloto automático”. Quando o cliente que a espera, era o próprio presidente, para lhe contar, que a amou também, desde aquele dia inesquecível na ponte…

Esse é o ponto final do filme… o livro vai além do “foram felizes para sempre”, porque afinal, a vida real começa além de onde o conto de fadas termina. Mesmo assim, a história dos dois não é menos emocionante… e nos brinda com memórias não menos tocantes.

“Quando eu era mais jovem acreditava que a paixão deve dimuniur com a idade, como uma xícara deixada numa sala gradualmente deixará seu conteúdo evaporar-se no ar. Mas quando o Presidente e eu voltamos ao meu apartamento bebemos um ao outro cm tanto desejo e necessidade que depois eu me senti esvaziada de todas as coisas que ele tirara de mim e repleta de todas as coisas que eu tomara dele. (…) Não posso lhe dizer o que nos guia nesta vida. Mas quanto a mim, tombei para o lado do Presidente como uma pedra cai para a terra. Quando cortei meu lábio e encontrei o Sr. Tanaka. Quando minha mãe morreu e fui cruelmente vendida. Tudo era como uma torrente que cai sobre penhascos rochosos antes de chegar ao oceano. Mesmo agora que ele se foi, eu ainda o tenho, na riqueza de minhas memórias. E contando-as a você, eu tenho novamente a minha vida.” (p. 450)

 

 

Tracei aqui em muito poucas linhas a minha impressão sobre esta história belíssima, fica o convite para que vocês também se deleitem com as imagens do filme e o cenário perfeito em que o livro nos coloca, para nos adentrarmos nessas memórias e trazê-las no coração como nossas…

 

Presidente e Sayuri na festa das Cerejeiras, na propriedade do Barão - Danna de Mameha

A beleza perversa de Hatsumomo

O solo supreendente de Sayuri no grande teatro

Estréia de Sayuri como gueixa aprendiz

Chyio ainda criança, maltratada por Hatsumomo

Chyio perante Hatsumomo antes de se tornar uma gueixa

Chyio sendo treinada por Mameha

Entretendo Nobu San, grande amigo do presidente... loonga história, terão que ver o filme ou ler o livro para entender

A partida de Hatsumomo

"Mamãe" a administradora da casa de gueixas

Reencontro de Sayuri e o Presidente depois da Segunda Guerra Mundial

Mameha, Sayuri e Hatsumomo na chamada do filme

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10 Respostas to “As Magníficas Memórias de uma Gueixa”

  1. Talita Says:

    Amei os comentários sobre o filme! Estou lendo o livro em doses homeopáticas, para não acabar! rsrsrs

    Abraços!
    Talita Abreu

  2. Sandra Says:

    to lendo esse livro , IMPRESSIONANTE

  3. Sandra Says:

    EU LI , QUE LIVRO É ESSE ? ;O QUE PERFEIÇÃO É ESSA ?

  4. Vanessa Alves Says:

    Você não sabe o quando que eu gosto deste filme.
    Eu tenho uma vontade enorme de ler o livro, mas ate hoje não econtrei, só pela internet. Quem sabe se eu baixar ele eu consiga, é boa idéia.
    Você disse tudo o que eu sinto, bem eu não tenho palaavras para decrever o que este filme representa para mim, mas pelo jeito como você o tratou vc deve ser tão apixonada por ele quando eu.
    Em fim parabéns eu gamei nesta postagem *—*

  5. Isabella Says:

    Eu to lendo esse livro, e achei maravilhoso, é impressionante como a Chiyo retrata o q sente e sua história é fascinante

  6. 50 Tons e uma questão: que está acontecendo com as heroínas de nosso tempo? | Colcha de Retalhos Says:

    […] fatalidade e construir seu próprio destino, ou a suave, meiga e ao mesmo tempo intrépida Chyio de Memórias de Uma Gueixa, que correu a vida toda buscando um sonho… até abraçá-lo com todas as […]


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