Não quero morar em um mundo onde não haja flores…

Geralmente, às sextas-feiras, eu tenho um horário de almoço extendido. Sexta é um dia interessante, trabalho com crianças o tempo todo, faço com elas vivências de yoga.

Jardim da casa de Claude Monet - Giverny, França.

 

No intervalo de almoço, passei a cultivar o hábito de visitar uma estufa de flores, espaço comum no bairro onde trabalho. Não sei se acontece com as outras pessoas, mas a beleza natural me alegra, muda meu humor. Faço uma breve caminhada entre as flores, de todas as cores e tipos, e pronto! O mundo já é um lugar mais bonito, os problemas parecem menores.

As vezes recebo um “bônus”, daqueles que somente as pessoas que prestam atenção à volta conseguem perceber. Hoje por exemplo, enquanto passava entre as folhagens de Bambu Mosso, percebi que um bando de “bicos de lacre” se mudara para lá. Alguns faziam uma arruaça danada, muito barulho, outros dormiam aconchegados em pares… tão lindinhos! Confesso que essas coisinhas de nada me emocionam, confirmam minha fé em Deus, que pensa no conforto de um mínimo passarinho…

Quando faço esses passeios, costumo relembrar a minha infância, e como eu olhava tudo com olhos curiosos e me maravilhava com as pequenas coisas. As crianças que conheço são todas assim… as vezes param no meio da aula de yoga, para verem uma formiga passar… nada é mais importante que o presente para elas, de sentidos sempre despertos para a beleza da criação. Me traz alegria pensar que me tornar adulta não me roubou essa capacidade de me alegrar com coisas simples.

Mas para onde vai a capacidade de observar e se maravilhar da maioria das pessoas? Por quê correm tanto e em busca do quê? Eu entendo e compartilho da luta por uma vida melhor, mas será mesmo que para isso temos que atropelar tudo e esquecer a beleza que nos circunda pelo caminho?

Eu só vejo sentido em trabalhar e ajuntar dinheiro, se de vez em quando for feita uma pausa para olhar o mundo, o que há de belo para se ver no dia de hoje. Admito ficar entre paredes de contreto, se souber que lá fora ainda há flores para se ver e que o mundo ainda é colorido.

Tenho tantos amigos, que moram na mesma cidade que eu e não percebem como ela se veste de flores diferentes no decorrer do ano. Passam pelas ruas, praças e parques, como se fossem teleguiados, programados para chegar a um destino estabelecido e não ver nada à volta. Para onde foi sua capacidade de enxergar?

Eu me preocupo… que no consumismo desesperado de mercadorias e recursos, acabemos por exterminar todas as flores, todas as cores do mundo, e venhamos a viver numa imensidão de cinza e fumaça. Temo que nos tornemos tão prozaicos que não nos emocionemos com mais nada, e passemos a amar mal… sermos mornos…

Não posso conceber um futuro no qual eu não possa compartilhar com meus filhos a sensação de maravilhamento perante a natureza, e as alegrias das pequenas coisas. Em que não possamos assentar no campo, ver as flores e apenas ficarmos juntos, naquele sentimento de “ser família”. Não consigo imaginar a infância sem o belo, o leve e alegre contato puro com a natureza, e é por isso que eu não posso morar em um mundo onde não haja flores…

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4 Respostas to “Não quero morar em um mundo onde não haja flores…”

  1. Yanne Says:

    É sempre bom ler seus textos e ver neles a pessoa sensível que você é!
    Muitas vezes tenho medo terrível de imginar que mundo será o dos meus filhos…que pessoas serão…que sentimentos elas terão…ou darão importância. É tudo tão frio, tão imediatista,tão interesseiro essas relações que hoje se apresentam, mas em outros momentos creio que existe alguém que de longe supervisiona tudo e que em algum momento colocará as coisas em ordem!Temos que cre nisso.

  2. iva Says:

    Oi Cleide, muito bom seu texto!
    As pessoas podem tentar acabar com o mundo…
    Fazer do mundo um lugar muito ruim de viver…
    Mas acredito numa força maior que não vai permetir que isso aconteça…
    E com pessoas sensíveis como você , escrevendo, trabalhando, lutando para um mundo melhor, isso pode acontecer!
    Tenha fé !
    Felicidades!
    Beijos!

  3. Fabrizzio Zampier Says:

    Em uma sociedade em que o “ter” vem se sobressaindo ao “ser”, fico feliz de poder saber que, existe no mundo pessoas sensíveis como você.
    Belo texto! Confesso que não fiquei surpreso pela qualidade das palavras !
    Bjo !
    PS. Eu também não poderia viver em um mundo onde não houvessem “flores”.


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