No Espírito da Páscoa

Para quem não sabe, aqui em Minas Gerais é muito forte a tradição católica de celebração da Semana Santa. Aqui mesmo no meu bairro, que é mais periférico, o pessoal ainda guarda o hábito de fazer procissão de madrugada no amanhecer da Páscoa.

Nas cidades do interior o feriado fica ainda mais bonito, em Ouro Preto especialmente as crianças se vestem de anjo e as ladeiras são transmutadas obras de arte em forma de tapete, para que os fiéis possam acompanhar as comemorações da ressurreição de Cristo.

Esse ano eu procurei me envolver mais nesses eventos, e passei um feriado especial. Primeiramente, essa época me traz boas lembranças da infância. Me lembro que ia para praça ver as encenações dos últimos dias de Jesus na Terra, participava da oração às 15 da tarde no dia da Paixão, ia à missa da Páscoa. Me lembro mais desses acontecimentos do que dos ovos de Páscoa que tenha ganhado.

Talvez isso tudo se deva ao fato de que desde criança, essa data me faz pensar em quem foi Jesus, o que realmente ele fez por nós, e especialmente, fico pensando nos seus companheiros, amigos e contemporâneos. Como deve ter sido, poder compartilhar da presença da melhor pessoa que viveu nesse planeta e então ter que se despedir dele? Esse pensamento sempre me causa um aperto no coração.

Os apóstolos, as vezes imaturos, com dúvidas como nós mesmos… prevendo a despedida do mestre, teriam que se tornar fortes, para que a lição não se perdesse. Na sexta-feira da Paixão desse ano, me peguei emocionada com isso, chorava na igreja ao ouvir a narração de João, o Evangelista, ou como ele gostava de dizer de si mesmo: “aquele que o mestre amava”. Vocês já leram a narração da despedida, da prisão, morte e ressurreição de Jesus no Evangelho de João? Se não leram, leiam… aquelas palavras trazem gravadas em si a emoção de quem viveu intensamente aquele momento.

João, adolescente tempestuoso – Jesus o apelidou de “filho do trovão”, mas que talvez por ser o “caçula” do grupo, cativou o mestre como um filho amado ou irmão mais novo, não tinha medo de demonstrar seu amor por Jesus em nenhum momento, nem mesmo durante a sua prisão, sendo o único a assistir todos os fatos. E à quem Jesus entregou uma tarefa muito preciosa: cuidar de sua amada mãe: Maria.

Também no Evangelho de João, está a assertiva de Jesus para os discípulos: “amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado”. O grande mandamento e desafio cristão. “Amar ao próximo como a si mesmo” já não bastava… estava no velho testamento, no Levidico. Jesus veio e exemplificou o amor universal, então, eis o desafio dos aprendizes de discípulos: amar como ele o fez.

Poderosa despedida, gravada para sempre na alma dos companheiros. Pedro, que vacilou para andar sobre as águas, negou Jesus três vezes, cortou a orelha do soldado que capturou o mestre. Após a ressurreição e o questionamento de Jesus “Pedro, tu me amas?” Se tornou uma verdadeira rocha, base do cristianismo que nascia. Conta-se no atos dos apóstolos, que as pessoas traziam os doentes para colocar à sombra de Pedro, e assim eram curados. [lembram-se que o Cristo dizia:”isso tudo que faço podeis fazer e muito mais”]

João, o discípulo amado, curou, pregou, amou, foi condenado à morte, mas não conseguiam matá-lo. Foi exilado, escreveu as belezas de seu Evangelho inspirado, já ancião. E ainda o apocalipse contando a história do nosso planeta e porvir. Viveu uma vida longa e plena de amor, foi o único apóstolo que morreu por causas naturais e não no martírio, mas que sem a menor dúvida, daria a vida pelo Cristianismo se lhe fosse pedida.

Nesse período de celebração, eu penso na nossa ignorância perante a Verdade, o Bem, o Amor, eu ao ouvir essas histórias, eu choro também pela ignorância de se crucificar alguém que era mensageiro da paz.

Mas ao mesmo tempo alegra e consola meu coração pensar na força que alguns homens tiveram, e a  coragem que mobilizaram para propagar como legado para o mundo todo, aquilo que ouviram de Jesus.

E acredito, que sendo cristãos – mesmo que cristãos da pós modernidade, que não vimos ou falamos com o mestre, ou tivemos os pés lavados por ele, que não o ouvimos ou tocamos –  ressurreição é deixar se tomar desse espírito dos primeiros cristãos e deixar que o Amor simples e puro renasça em nosso coração, e nos transforme, nos envolva em seu poder, como fez com eles e os permitiu, sem riquezas, sem grande instrução, mudar os rumos da história.

Vou encerrar com o final do Evangelho segundo São João, quando ele narra seu último encontro com o Cristo ressuscitado, deixando  o incentivo para que se puderem, leiam o livro todo, é lindíssimo!

” E Pedro, virando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, o mesmo que na ceia se recostara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é o que te trai? Ora, vendo Pedro a este, perguntou a Jesus: Senhor, e deste que será? Respondeu-lhe Jesus: Se eu quiser que ele fique até que eu venha, que tens tu com isso? Segue-me tu.Divulgou-se, pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não disse que não morreria, mas: se eu quiser que ele fique até que eu venha, que tens tu com isso? Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. E ainda muitas outras coisas há que Jesus fez; as quais, se fossem escritas uma por uma, creio que nem ainda no mundo inteiro caberiam os livros que se escrevessem.” (Jo. 21: 20-25)

Advertisements
Publicado em Jesus, Retalhos. Etiquetas: , , . 3 Comments »

3 Respostas to “No Espírito da Páscoa”

  1. Yanne Says:

    Como moro no interior éssa coisa de tradição é muito forte!Passei uma Semana de orações….Tenho hábito de levar meus filhos para que um dia quem sabe eles levem os seus!

    Podemos esquecer de tudo,mas não devemos esquecer de onde viemos e pra onde iremos…somente a mensagem de Jesus nos faz sermos humanos de verdade!

    bjs!

  2. Josi Says:

    “Podemos esquecer de tudo,mas não devemos esquecer de onde viemos e pra onde iremos…somente a mensagem de Jesus nos faz sermos humanos de verdade!” [2]

    Seu texto ficou Muito bonito, Cleide. Parabéns.

    Quem dera se as pessoas tentassem ao menos amar umas às outras como a si mesmas… Quem sabe as coisas não melhorariam bastante?

    Beijos!

  3. Priscila Says:

    Cleide, lindo o texto! Eu passei a semana santa na cidade dos meus pais, no interior de SP, e tb participei de todas as celebrações, é algo fantástico! É como se você se desligasse das coisas mundanas, para pelo menos por três dias pensar profundamente no quanto Cristo fez por nós, e sua mensagem de fé e amor, que apesar de passados mais de 2 mil anos, continua tão atual… Este é o lado bom do interior: como as pessoas não correm tanto, tem mais tempo para este mergulho de espiritualidade que faz tão bem.

    Que não nos esqueçamos da mensagem cristã ao longo do nosso ano, amando-nos uns aos outros assim como ele nos amou (o mandamento maior da vida, que se imperasse faria deste mundo um lugar muito melhor) e tb tentando levar sua mensagem ao maior número possível de pessoas. E que saibamos ser gratos por cada dia de sol, cada flor, cada sorriso, enfim, cada pequeno milagre do dia a dia.

    Beijos


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: