Dissecando a Inveja – Parte II

Dando continuidade à discussão que tinha começado aqui:

https://cleidescully.wordpress.com/2010/03/18/dissecando-a-inveja-parte-i/

Sobre como a inveja parece ser supervalorizada na nossa sociedade e as causas disso… vamos prosseguir.

Em geral essa questão da inveja popularizada se dirige muito mais à aparência do que à essência. As pessoas “invejadas” se gabam de ter “um corpo” ou “cabelos”, ou acessórios e bolsas e roupas de marcas famosas…  Sinceramente, nunca vi alguém dizer no Orkut ou em outra comunidade que o invejam por ser solidário, por ir ao asilo visitar velhinhos, por brincar com crianças abandonadas e doentes, por ter escrito uma tese de doutorado ou por doar seu tempo ao próximo ou a um projeto de vida, ou a um mundo melhor.

Eu cá com meus botões, estou começando a achar, que perante o que assisto nessa “sociedade da imagem”, a expressão “recalcada” é até um elogio – ela indica que você não se rendeu a essa lógica da aparência valer mais que a essência. Geralmente são chamados assim, de “recalcados”, as pessoas não fúteis, pessoas de senso crítico, que não se entregam à espetacularização da vida, que se preocupam com o próximo, que estudam, trabalham , batalham e têm um sonho a realizar além de colocar uma bunda ou peito de silicone, que têm amigos de verdade e acabam por não ter tempo para assistir o espetáculo dos “invejados”.

Então, me parece um tipo de lógica reversa… “eu digo que sou invejado porque na verdade eu me sinto inferior, e na verdade queria que os ‘recalcados’ me dessem importância”. No final das contas, o feitiço vira-se contra o feiticeiro, e os que se dizem tão invejados, perseguidos e populares, são na verdade imaturos, infantis, mesquinhos e incapazes de uma vida interior rica que lhes gere satisfação. No fundo a real inveja reside nas pessoas que desejam tanto ser invejadas que criam todo esse cenário ao seu redor: vivem armadas, são irritadiças, tudo que ouvem levam para o lado pessoal, tomam sugestões e críticas construtivas como ofensa, acham que todos estão falando deles… sinal de fragilidade emocional e personalidade fraca.

Coitado do Balzac, citado lá no início, deve estar rolando no túmulo… ele fala da inveja como um instinto natural humano, uma coisa comum. Distante da visão hodierna que coloca a emoção como o grande vilão, temido e paradoxalmente desejado. É normal quando se é criança, sentir-se enciumado por achar que o irmão ganha mais atenção dos pais, é comum brigar na escola pela atenção da professora, ou sentir inveja do elogio que o colega ganha… com o tempo, vamos sendo ensinados a guardar esses sentimentos, por serem inadequados – aí sim cabe a palavra “recalque”, guardamos internamente esse sentido de comparação e acabamos competindo com o outro veladamente.

Ninguém quer ser chamado invejoso, não porque é um pecado [muitos não ligam se sentir ira, gula, preguiça…] mas porque a inveja te coloca num degrau inferior ao invejado, e ninguém quer ficar por baixo na nossa sociedade, onde a felicidade é vendida como se você fosse ali no supermercado comprá-la. Um filósofo chamado Gilles Lipovetsky [sim, como eu sou uma “recalcada” leio filosofia…] disseca muito bem essa mania estranha da nossa sociedade ao dizer:

“Cotidianamente, a televisão, as revistas, a imprensa de celebridades exibem o espetáculo dos que encarnam a plenitude da vida. Por meio de fotos e de reportagens superlativas, as mídias fazem apenas brilhar os modelos da vida feliz, empenham-se em tornar os belos os mais belos, mais desejáveis os mais desejáveis, mais felizes os mais felizes. A uma lógica tradicional de dissimulação segue-se uma lógica de superexposição das imagens da felicidade fora do comum” (A Felicidade Paradoxal – p. 313)

Entre os gregos na antiguidade, era considerado errado superexpor sua felicidade sobre a dos outros. Em outros tempos, também isso era mal visto – provavelmente até o final da Idade Média, e deve ter começado a mudar quando a burguesia começa a surgir e posteriormente quando precisa de conquistar símbolos da nobreza para conquistar seu espaço – e a aparência começa a valer como se indicasse essência.

Mas no mundo pós-moderno a lógica se reverteu, e fazemos exatamente o contrário. Supervalorizamos modelos de vida totalmente plásticos e fúteis. Paga-se fortunas para modelos, celebridades, e tão pouco aos professores, enfermeiros, pesquisadores, médicos, advogados… trabalhadores cotidianos. Valoriza-se a beleza física como o único atributo importante, como se ela valesse por si mesma, e esquece-se de tantas outras coisas que tornam uma pessoa aprazível.

Esforça-se por mostrar e expor todos os momentos da vida em uma vitrine. Não basta ser feliz – o outro precisa saber disso – não para compartilhar de nossa alegria, mas para se sentir inferior por não alcançar nosso brilho. Tem horas que eu penso que nossa sociedade é composta por um bando de crianças no corpo de adultos, tentando medir entre si, quem tem o brinquedo mais novo, bonito e brilhante…

Mas será que felicidade é isso mesmo?

Atualizando:
Gustavo Gitti do não2 não1, oferece uma sugestão interessante para quem quer sair dessa lógica viciada da supervalorização da imagem:

.: Se quiser contribuir para a construção de uma sociedade menos imagética, ame alguém. Você naturalmente será menos refém de sua visão e vai treinar muito mais os outros quatro sentidos. O mundo se expande e as imagens se empalidecem diante das belezas cheiradas, tocadas, degustadas e ouvidas.

Vale a pena ler o artigo todo: : http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-a-beleza-ou-breve-ensaio-sobre-a-estetica-nos-relacionamentos-parte-1/>

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13 Respostas to “Dissecando a Inveja – Parte II”

  1. Dissecando a Inveja – Parte I « Colcha de Retalhos Says:

    […] Recentes Dissecando ao Inveja… on Dissecando a Inveja – Pa…cleidescully on Dissecando a Inveja – […]

  2. iva Says:

    É Cleide ,este assunto da pano pra manga…muitos dos nossos erros estão na educação, infelizmente ! Muita vezes ouvir pais dizerem aos seus filhos:”Não chora meu filho, ele fez isso por inveja, você é muito melhor q… e etc…etc.” Confesso que já falei essa frase e me arrependo muito, porque como mãe tenho que ter cuidado e saber dar verdadeiro valor ao que é realmente digno ao educar meus filhos !DEVEMOS SER MENOS PARA SERMOS MAIS! UM BEIJÃO.

    • Cleide Sousa Says:

      Iva, a medida é difícil e dá pano pra manga mesmo o assunto.
      As vezes nossos filhos são vítimas de inveja, e é preciso trabalhar-lhes a autoconfiança, para que os outros não os tratem mal e prejudiquem sua auto-estima. Mas em muitos casos é comum os pais ensinarem os filhos a competirem e se acharem melhores que os outros, a ponto de ter mais privilégios e até trapacear…

  3. Yanne Says:

    O amor egoísta que impera hoje nos distancia…

    A expressão “preciso ter tempo pra mim” “”eu me amo” são usada apenas para dizer,”não me importo se vou fazer alguém sofrer, se eu preciso de algo, busco, tomo”. E assim tenho tudo o que outros não tem, sou forte, decidida e se não me vêem assim é porque me invejam, estão preocupadas em agradar a si mesmas que não percebem que ninguém quer o que ela quer , quem ela é ou o que ela tem. Porque se acreditassem que era capazes de fazer alguém ama-las de verdade, não precisaria nada disso,pois o amor preenche todos os espaços.

  4. Josi Says:

    “DEVEMOS SER MENOS PARA SERMOS MAIS!” [2]

    Há uma passagem na Bíblia em que Jesus fala isso. Ele diz que se vc é convidado para uma festa e senta nas últimas cadeiras, os donos da festa podem vir e te convidar para sentar mais a frente. Eu sempre gostei desse conselho que, como td o que Ele diz, é muito sábio.

    Os dois textos estão ótimos, Cleide. Parabéns!

  5. Cemitério das Celebridades na PGA – Luan Santana | Blog da PGA Says:

    […] Atenção: Caso o caro leitor sinta-se tentado a concluir que o sentimento motivador deste artigo seja a mera INVEJA, peço para que antes, leia e pondere sobre um interessante artigo do blogue Colcha de Retalhos, mantido pela colega blogueira Cleide Scully. Segue o link da parte 2 do referido artigo: Dissecando a Inveja – Parte 2 […]

  6. Luan Santana « Cemitério das Celebridades* Says:

    […] Material relacionado: Luan Santana do Além Luan Santana do Além (Versão 2) Dissecando a Inveja – Parte 2 (Colcha de Retalhos) […]

  7. jennifer Says:

    fala serio gostei pacaraii essa e pra thainara e amanda recalcadas e nato

  8. “Mosaicos Existenciais à Procura” « Colcha de Retalhos Says:

    […] você gostou do assunto, eu já falei do amor aqui,  aqui e aqui também. Neste post falei da inveja, e um pouco sobre os relacionamentos e nossas idealizações […]

  9. aline Says:

    nossa você esta de parabéns com esta postagem sobre
    Dissecando a inveja

  10. Daniela Ramos Mandeli Says:

    Amei seu ´post!!! Realmente esta inveja exagerada que anda se expandindo por aí, é de causar nauseas. As pessoas tendem a ter a necessidade de se exibiram,para na]ao revelarem o quanto tem a alto estima baixa!!! Novamente Parabens amei seus textos

  11. 50 Tons e uma questão: que está acontecendo com as heroínas de nosso tempo? | Colcha de Retalhos Says:

    […] defender meu ponto de vista, mas antes que me acusem de carola, “recalcada” ou moralista, tenho que dizer que meu assombro não se justifica pelo presumido […]


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